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quarta-feira, 22 de abril de 2009

Camisola


Quando saí do hospital, fresco como uma rosa, trazia comigo duas satisfações. Uma, a de me ter visto livre, finalmente, de uma impertinente bronquite que há meses, com altos e baixos, parecia não querer largar-me, mas que desta vez teve de resignar-se a ir à procura doutro hospedeiro.

Oxalá não o encontre. A segunda satisfação era de diferente natureza. Sucede que neste pequeno hospital de Lanzarote, certamente com surpresa de quem me leia, trabalham nada mais, nada menos que 17 ou 18 enfermeiros vindos de Portugal, da província do Minho na sua maior parte. Sucede também que, antes de sair, tive de fazer uma radiografia ao tórax para que ficasse devidamente documentado que o paciente, como costuma dizer-se, está bem e recomenda-se.


Eu levava posto o que hoje chamamos um "jersey", portanto foi um "jersey" que despi e deixei em cima de uma cadeira.


O enfermeiro, português de Felgueiras, devia verificar se as chapas haviam resultado tecnicamente satisfatórias e, para isso, teve de passar para um compartimento ao lado. Disse: "São só dois minutos, depois dou-lhe a camisola." Creio que estremeci. Não tornara a ouvir a palavra desde há uns trinta anos, talvez mais, e aqui, em Lanzarote, a dois mil quilómetros da pátria, um jovem enfermeiro de Felgueiras, sem o imaginar, dizia-me que a língua portuguesa ainda existia. Abençoada bronquite.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Redução de serviços gera descontentamento

Maria Augusta, 74 anos de idade, não escondia a insatisfação depois de terminar a sua consulta habitual de controlo de diabetes e hipertensão, no Centro de Saúde de Marmelais, em Tomar. Acabara de saber que a partir do início desta semana deixaria de ter um dia e horário específico para ser atendida, ficando, antes, dependente da disponibilidade dos enfermeiros ali existentes.


Na quinta-feira, dia 5, a Unidade de Saúde Familiar (USF) do Centro de Saúde de Marmelais foi informada pelo conselho de administração da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) sobre a não autorização do prolongamento até 30 de Junho do regime de horário acrescido de 42 horas semanais que os enfermeiros daquela unidade têm vindo a realizar desde o passado dia 1 de Janeiro.


IN Jornal O Templário

quinta-feira, 9 de abril de 2009

A enfermeira professora




A história de... Mariana de Sousa



Foi esta terça-feira galardoada com o Prémio Nacional de Saúde 2008 pelos serviços prestados em favor do desenvolvimento do ensino e da práticada enfermagem em Portugal.

Começou a trabalhar em 1952. Tinha então 23 anos e acabava de se formar na Escola Técnica de Enfermeiras, em Lisboa. Mariana Diniz de Sousa, hoje com 80 anos, foi agraciada com o Prémio Nacional de Saúde 2008 numa cerimónia quase íntima que decorreu ontem nas instalações do Infarmed.




Até se reformar, há dois anos, dedicou-se com afinco à pedagogia da enfermagem. Fala desse tempo, que começou com uma viagem aos Estados Unidos da América para fazer uma pós- graduação na área. "Fiz um curso direccionado para o ensino. Tive essa sorte". Naqueles anos era um privilégio estudar, ainda mais num país de pedagogia avançada, como os EUA. Quase dois anos volvidos, regressou a Lisboa, para a Escola Técnica de Enfermeiras.




"E o que é que eu fui fazer? Duas coisas, ensinar e praticar, porque uma pessoa quando ensina também pratica. Para ensinarmos aos jovens estudantes enfermeiros, temos que praticar para eles verem como se faz". E assim fez, durante anos. "Acompanhava os alunos aos hospitais em que eles estudavam. Escolhia os sítios aos quais levava os alunos para fazerem o estágio. Percorri assim os hospitais de Lisboa, sempre com grupos de alunos".



Mas fez muito mais. "Depois estive no Ministério da Saúde, fui assessora de vários ministros e fui fazendo estudos, propostas, nomeadamente na parte de revisão dos cursos. Constituí grupos para irmos estudando e abrindo caminhos na enfermagem. Depois fui directora-geral do Departamento de Recursos Humanos do Ministério da Saúde".



Foi a primera presidente da Ordem dos Enfermeiros, organismo que fundou. Sem falsa modéstia ainda acrescenta: "Fiz muito pelo avanço da enfermagem em Portugal, também no que diz respeito às carreiras dos enfermeiros, à programação do ensino dos enfermeiros e aos aspectos ligados ao exercício da profissão".



Considera que os enfermeiros "têm um papel importante a desempenhar" nos cuidados continuados e paliativos. Mas diz que a prática desses cuidados é ainda "incipiente" em Portugal. "Ainda há a estudar mais, muito mais sobre o assunto. Não há documentos definitivos. É incipiente". Os anos de experiência contam muito na posição que assume: frontalmente contra a eutanásia. "Essa questão não deve ser colocada. Pessoalmente, não concordo".


Mariana Diniz de Sousa recebeu um colar com os nomes de vários colegas gravados a ouro.



E AINDA

Mariana Diniz de Sousa marcou a enfermagem em Portugal, com especial relevância nos seus aspectos de organização, administração, ensino e dignificação profissional dos enfermeiros, contribuindo para a obtenção de ganhos de saúde e prestígio das organizações no âmbito do Serviço Nacional de Saúde (SNS).


No contexto das funções que exerceu na Direcção-Geral dos Hospitais, coordenou as actividades que levaram à reforma do ensino de enfermagem, tanto na formação inicial como na formação pós-básica. Teve relevante intervenção na preparação de legislação e regulamentação sobre o ensino de enfermagem e sobre o funcionamento das escolas de enfermagem, de que resultou a autonomia das escolas de enfermagem face aos hospitais.


Coordenou os trabalhos conducentes à criação da Escola de Ensino e Administração de Enfermagem e à aprovação dos planos de estudos do Curso de Ensino e Administração (Pedagogia e Administração).
No Instituto Nacional de Saúde Dr Ricardo Jorge, assumiu funções de orientação e coordenação do ensino de enfermagem, tendo criado e dirigido o Departamento de Ensino de Enfermagem.


Foi Subdirectora-Geral e Directora-Geral do Departamento de Recursos Humanos da Saúde, sendo de destacar os estudos para o desenvolvimento de uma política de recursos humanos, que se traduziu, nomeadamente, na reforma das carreiras dos profissionais de saúde, na regulamentação do exercício profissional dos enfermeiros, no estudo, alteração e gestão dos quadros de pessoal dos Estabelecimentos do SNS.

Na qualidade de responsável máxima do Departamento de Recursos Humanos da Saúde, contribuiu para o estudo sobre as situações profissionais de especial desgaste ou risco, bem como sobre o regime de incentivos para fixação de enfermeiros e médicos localizados em regiões periféricas.


No decorrer da sua vida profissional, proferiu numerosas conferências e palestras, realizou muitas visitas de estudo e missões oficiais no âmbito da cooperação com países de expressão oficial portuguesa, fez parte de numerosos grupos de trabalho, comissões e conselhos, destacando-se a sua actividade como Bastonária da Ordem dos Enfermeiros de 1999 a 2004.